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Por que "sem THC" nunca é zero

Toda planta de canabidiol produz um pouco de THC. O que tira esse THC do frasco é um passo de processo depois da colheita, e o que o laudo chama de "não detectado" quer dizer "abaixo do que este laboratório consegue medir".

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Cannabis sativa. Prancha de Köhler, Medizinal-Pflanzen, 1887.
Cannabis sativa. Prancha de Köhler, Medizinal-Pflanzen, 1887.
Em resumo e nesta página
  • Numa planta de CBD, de 4 a 5% dos canabinoides vêm na forma de THCA, o ácido que vira THC com calor e tempo. Isso é da planta, não defeito de cultivo.
  • "Sem THC" descreve um processo feito depois da colheita. "Espectro amplo" e "isolado" são nomes desse processo, não notas de qualidade.
  • "Não detectado" no laudo vem sempre acompanhado de um número: o limite do laboratório. Quem quer saber o que está no frasco confere o laudo do lote e esse limite.
Nesta página · 5 seções
  1. A planta não produz pensando no rótulo
  2. O que vira THC com o tempo
  3. "Sem THC" é nome de processo
  4. "Não detectado" quer dizer "abaixo do que o laboratório mede"
  5. O que isso muda para você

A planta não produz pensando no rótulo

Imagine a flor de uma cultivar de CBD secando no galpão, logo depois da colheita. Dentro dela, os canabinoides estão quase todos na forma ácida. O principal é o ácido canabidiólico (CBDA), que ocupa de 85 a 90% do total. O resto se divide entre outros ácidos, e um deles é o ácido tetraidrocanabinólico (THCA), a forma que vira tetraidrocanabinol (THC).

Esse THCA aparece de forma constante: de 4 a 5% da fração de canabinoides, numa cultivar selecionada para produzir CBD. Não é contaminação, não é erro de cultivo, não é mistura com outra planta. É o jeito como essa planta funciona. Por que ela faz isso, a ciência ainda não explicou: o pesquisador que descreveu o fenômeno chama o dado de intrigante e nota que ele foi pouco estudado.

Um limite legal de THC, qualquer que seja, é uma convenção da regulação. A planta não produz pensando nele. O mesmo pesquisador dá o exemplo da Europa: com o limite de 0,2% de THC vigente na época para cultivares de fibra e semente, bastava a planta chegar a 4% de canabinoides no total para encostar nele. O limite é da lei; a proporção é da planta.

O que vira THC com o tempo

O THCA não fica parado. Calor, luz e tempo transformam o ácido em THC. Guardado em temperatura ambiente, um material pode ter metade do THCA convertido em um ano, segundo um estudo antigo citado num manual de farmacologia. Por isso o laudo traz duas linhas, THC e THCA, e muitas vezes uma terceira, "THC total", que soma o que já virou e o que ainda pode virar.

Vale também para o que já saiu da planta. Uma revisão de 2021 sobre canabinoides menores registra que nenhuma amostra de THCA é completamente livre de THC, e que produtos feitos para conter as formas ácidas quase sempre carregam também um pouco das formas neutras. O frasco esquecido na gaveta não é o mesmo frasco do dia em que o laudo foi feito. O laudo é a fotografia de uma data.

"Sem THC" é nome de processo

Se o THC vem junto com a planta, tirá-lo é trabalho de depois. O extrato sai da flor com tudo o que ela fez, incluindo o THC. Para que um produto chegue abaixo do limite de detecção, existe um passo a mais, que remove ou reduz o THC de um perfil que, no restante, continua o da planta. O mercado chama esse resultado de espectro amplo (broad spectrum, em inglês).

O isolado é outro caminho: uma única molécula, em geral o CBD, separada de todo o resto. Nos dois casos, o nome diz o que foi feito com o extrato. Não diz se ele é melhor ou pior. Cada caminho é a ferramenta certa para um objetivo, e o extrato de planta inteira, que carrega o THC que a planta fez, é um terceiro. Na OG, trabalhar com extrato de planta inteira é uma escolha, não uma prova de superioridade; a remoção do THC atende a quem precisa dela por um motivo igualmente legítimo. Qual caminho faz sentido para cada pessoa é conversa com o prescritor.

O que fica é simples: "sem THC" num produto descreve um processo e um resultado de medição. Nunca descreve a planta de origem.

"Não detectado" quer dizer "abaixo do que o laboratório mede"

Pense numa balança de cozinha que só marca a partir de um grama. Uma pitada de sal em cima dela mostra zero. O sal está lá; a balança é que não enxerga. Todo laboratório tem a sua balança: um limite abaixo do qual ele não informa número, só informa que não conseguiu medir. É o limite de detecção, ou de quantificação, e ele vem escrito no laudo.

Esse limite muda de laboratório para laboratório. Num estudo americano de 2017 que analisou produtos de CBD, o laboratório contratado informou um limite de quantificação de até cerca de 0,3% do peso. Um "não detectado" nesse laudo e um "não detectado" num laudo com limite bem mais baixo são informações diferentes, mesmo com a mesma palavra.

Por isso o "não detectado" se lê sempre ao lado de um número. Sem ele, a palavra não diz quanto THC pode haver; diz só que é menos do que aquele laboratório mede. Quanto mais baixo o limite, mais o "não detectado" vale. E o laudo que vale é o do lote que está na sua mão, porque a mesma planta varia, e o processo também.

O que isso muda para você

  • Em produto de CBD, uma linha de THC no laudo não é anomalia: é a planta. O que interessa é quanto, e com que limite.
  • Peça o laudo do lote que está no seu frasco e confira se o número do lote e a data batem com a embalagem.
  • Procure a linha "THC total" e o limite de detecção ou de quantificação do laboratório. "Não detectado" só se lê junto com esse número.
  • "Espectro amplo" e "isolado" dizem o que foi feito com o extrato, não o quanto ele é bom. Qual deles faz sentido para você é conversa com quem prescreve.
  • Luz, calor e tempo mudam o que está no frasco. O laudo descreve o lote no dia em que foi analisado.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • de Meijer, E. (2014). Capítulo sobre os quimiotipos de cannabis, em Pertwee, R. G. (org.), Handbook of Cannabis.
  • Walsh, K. B. et al. (2021). Canabinoides menores: biossíntese, farmacologia e usos potenciais.
  • Grotenhermen, F. e Russo, E. (orgs.) (2002). Cannabis and Cannabinoids (conversão do THCA ao longo do tempo; fonte secundária).
  • Bonn-Miller, M. O. et al. (2017). Precisão de rótulos de extratos de canabidiol vendidos online (limite de quantificação do laboratório).