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Por que o seu óleo é testado por lote, e não uma vez por produto

A mesma planta não é igual em toda parte, e o mesmo produto não é igual em toda fabricação. Por isso o laudo que importa não é o do produto em geral: é o do lote que está no seu frasco.

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Cannabis sativa, com flores e sementes. Prancha de Sturm, Deutschlands Flora in Abbildungen, 1796.
Cannabis sativa, com flores e sementes. Prancha de Sturm, Deutschlands Flora in Abbildungen, 1796.
Em resumo e nesta página
  • O teor de canabinoides varia muito dentro de uma mesma planta, e uma amostra pequena pode não representar o todo.
  • Um laudo serve para um lote. É o número do lote, impresso no frasco, que liga o papel ao óleo que você tem em mãos.
  • Painel de canabinoides por produto e painel de contaminantes por lote é uma prática comum de laboratório. Saber qual painel é qual é o que importa.
Nesta página · 5 seções
  1. A mesma planta não é igual em toda parte
  2. O que é um lote, e o que o laudo diz sobre ele
  3. Painel por produto, contaminantes por lote: por que isso existe
  4. A data também conta
  5. O que isso muda para você

A mesma planta não é igual em toda parte

Imagine uma planta de cannabis inteira, da raiz à flor. Raiz e semente não têm canabinoides. O caule chega a 0,3% de tetraidrocanabinol (THC). As folhas de baixo ficam abaixo de 1%. A flor feminina sem semente passa de 20%. Tudo isso numa planta só.

Esse dado vem do capítulo de cultivo do manual de referência organizado por Pertwee, que faz uma observação importante para quem lê laudo: o teor de canabinoides na flor é extremamente variável dentro de uma única planta, e valores altos medidos em amostras pequenas muitas vezes não representam a planta de onde saíram.

Agora pense em um campo. Centenas de plantas da mesma cultivar, colhidas, secas e extraídas em dias diferentes. A proporção entre os canabinoides tende a se manter, porque é definida pela genética. A quantidade total, não: muda com o ambiente, com a parte da planta que entrou na extração, com o momento da colheita. Dois lotes do mesmo óleo, feitos da mesma cultivar, saem parecidos. Não saem idênticos.

O que é um lote, e o que o laudo diz sobre ele

Um lote é uma quantidade de produto feita de uma vez, com a mesma matéria-prima, no mesmo processo. Recebe um número, e esse número vai para o frasco.

O laudo (ou certificado de análise, COA na sigla em inglês) é o documento que um laboratório emite depois de analisar uma amostra. Um laudo completo traz quatro coisas: o painel de canabinoides, com as formas neutras e as formas ácidas; o painel de terpenos, quando é testado; o painel de contaminantes, que cobre agrotóxicos, metais pesados, solventes residuais e microbiologia; e os identificadores, que são o laboratório, o método, a data e o número do lote.

Esse último item é o elo. O laudo descreve a amostra que o laboratório recebeu. Se o número do lote no laudo é o mesmo do frasco, o papel fala do seu óleo. Se não é, o papel fala de outro óleo, parecido, mas outro.

Painel por produto, contaminantes por lote: por que isso existe

Aqui está a parte que pouca gente explica. Nem todo laudo é refeito por inteiro a cada lote, e isso tem uma lógica.

Funciona assim. Quando um laboratório mede o mesmo produto muitas vezes e os canabinoides saem sempre dentro de uma faixa estreita, ele pode emitir um painel de canabinoides por produto, válido para a linha. Já os contaminantes são outra história: agrotóxico, metal pesado, solvente residual e microbiologia dependem de cada colheita, de cada tanque, de cada dia de trabalho. Esses testes são feitos lote a lote, porque variam de verdade lote a lote.

É uma prática de mercado, e tem lógica: investir o teste onde a variação acontece. O que muda para quem lê é uma pergunta: este painel é por produto ou por lote? As duas respostas são aceitáveis. O problema é só não saber qual é qual.

A escolha da OG, aqui, é de clareza: não publicar um número sem laudo por trás, e dizer qual painel é por produto e qual é por lote quando o paciente pergunta. Pergunte pelo laudo do lote a quem te atende.

A data também conta

Um laudo é uma fotografia. Mostra o lote no dia em que foi analisado, e o óleo continua mudando depois. Calor, luz e tempo convertem as formas ácidas dos canabinoides nas formas neutras, e o material vai envelhecendo.

Os números disso existem para a planta guardada: num estudo citado por Grotenhermen e Russo, depois de um ano em temperatura ambiente metade do ácido tetraidrocanabinólico (THCA) já tinha virado THC; em 47 semanas, o THC caiu 7% no frio e no escuro, 13% em temperatura ambiente e 36% com luz. Para o óleo pronto no seu frasco, a ciência mediu menos; o que se observa é que a direção é a mesma, e a velocidade depende de como ele é guardado.

Há um sinal de idade que aparece no próprio laudo: o canabinol (CBN). A planta não produz CBN. Ele se forma quando o THC se degrada com luz, oxigênio e calor, e por isso aumenta em material envelhecido. Um CBN alto num laudo de óleo de canabidiol (CBD) é, antes de tudo, um relógio.

Por fim, o número de THC só faz sentido lido contra o limite que vale para aquele produto. Um laudo lido sozinho é só uma tabela; lido ao lado do limite certo, vira resposta.

O que isso muda para você

  • Procure o número do lote no frasco e compare com o número do laudo. Se são iguais, o laudo é do seu óleo.
  • Olhe a data da análise. Um laudo antigo descreve o lote como ele era, não como ele está.
  • Pergunte qual painel é por produto e qual é por lote. A resposta certa é a que diz qual é qual.
  • Se o laudo traz CBN, lembre que ele cresce com o tempo. É informação sobre idade, não sobre efeito.
  • Guarde o frasco longe de luz e calor. O laudo não acompanha o óleo depois que ele sai do laboratório.
  • Dúvida sobre produto e tratamento vai para o prescritor, que conhece o seu histórico.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • Pertwee (org.), 2014, Handbook of Cannabis (capítulo de cultivo, Potter)
  • Grotenhermen e Russo (orgs.), 2002, Cannabis and Cannabinoids
  • Walsh, McKinney e Holmes, 2021, Minor cannabinoids (Frontiers in Pharmacology)
  • Crippa, Souza, Guimarães e Zuardi (orgs.), 2023, Canabidiol na Medicina