O Brasil tem história nesta ciência
A ciência dos canabinoides não é importada. Uma parte importante dela foi feita aqui.

Em resumo e nesta página
- A planta acompanha a humanidade há milênios; a planta já estava domesticada há cerca de 12 mil anos.
- A química moderna dos canabinoides começa em 1964.
- Desde os anos 1970, pesquisadores brasileiros estudam o CBD. Em 2020, a USP liderava a produção científica mundial sobre o composto.
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Uma planta antiga
O gênero é muito mais antigo que a sua domesticação: há pólen compatível com cannabis de até 19,6 milhões de anos, e os registros arqueológicos mais antigos de uso da planta são sementes de um sítio no Japão, de cerca de 10 mil anos atrás (McPartland e colegas, 2019).
Há cerca de 12 mil anos a planta já estava domesticada no leste da Ásia, segundo uma estimativa genômica feita com mais de cem genomas (Ren e colegas, 2021), com intervalo largo de incerteza. As linhagens voltadas para fibra e para uso medicinal e psicoativo se separaram a partir de uns 4 mil anos atrás (Ren e colegas, 2021). Uma das evidências químicas mais antigas de uso psicoativo, com datação direta, é bem mais recente: resíduos de CBN, produto da oxidação do THC, em braseiros funerários de cerca de 2.500 anos, no Pamir (Ren e colegas, 2019).
O ano zero da química
Em 1964, Yechiel Gaoni e Raphael Mechoulam isolaram e descreveram a estrutura do THC. Dali vieram os receptores, nos anos 1990, e os ligantes que o próprio corpo produz.
O capítulo brasileiro
Enquanto a planta era criminalizada, o Brasil fazia ciência com ela. Em 1973, o grupo de Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicou os primeiros estudos brasileiros com CBD em animais. Em 1980 veio um ensaio duplo-cego em humanos, pequeno, que vale como marco histórico (Cunha, Carlini e colegas). Dos anos 1980 em diante, o grupo de Ribeirão Preto da USP levou a pesquisa adiante. Em abril de 2020, a Anvisa aprovou o primeiro produto de CBD puro desenvolvido no país (Zuardi e Crippa, 2023). Um levantamento bibliométrico de 2020 apontou a USP como a instituição com a maior produção científica sobre CBD no mundo.
E a outra história
A proibição também tem história própria no Brasil, e não foi neutra. A campanha médica que levou à proibição tratou a maconha como hábito trazido pelos africanos escravizados e a descreveu em termos raciais explícitos; para a historiadora Luísa Saad (2019), a proibição mirou mais as práticas culturais e os grupos raciais do que a substância. Saber disso ajuda a entender de onde vêm os preconceitos que ainda cercam o tema.
O Brasil não começa do zero. Produz esta ciência, não apenas consome.
Conteúdo educativo.
- McPartland JM, Hegman W, Long T. Vegetation History and Archaeobotany. 2019;28:691-702.
- Ren G et al. Science Advances. 2021;7(29):eabg2286.
- Ren M et al. Science Advances. 2019;5(6):eaaw1391.
- Gaoni Y, Mechoulam R. Journal of the American Chemical Society. 1964.
- Zuardi AW, Crippa JAS. Brazilian Journal of Psychiatry. 2023;45(6):463-464.
- Jornal da USP, 17 de julho de 2020.
- Saad L. "Fumo de negro": a criminalização da maconha no pós-abolição. EDUFBA. 2019.