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← Educação A história e a ciência · Sistema endocanabinoide

Um sistema mais antigo que a planta

O corpo não esperou a cannabis para ter um sistema endocanabinoide. Ele já funcionava no cérebro dos peixes muito antes de a planta existir, trabalha com moléculas que o próprio organismo fabrica, e a cannabis entrou nessa conversa por acaso: fala a mesma língua.

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Peixe-dourado, Carassius auratus. Prancha 94 de Bloch, entre 1774 e 1804. Universidade de Amsterdã.
Peixe-dourado, Carassius auratus. Prancha 94 de Bloch, entre 1774 e 1804. Universidade de Amsterdã.
Em resumo e nesta página
  • Nos vertebrados, a sinalização endocanabinoide no cérebro acompanha mais de 400 milhões de anos de evolução, e os receptores CB1 e CB2 só existem nos animais do nosso grupo, os cordados.
  • O corpo produz os próprios canabinoides, a anandamida e o 2-AG, feitos na hora e no lugar em que são necessários.
  • O sistema não "liga" nada: ajusta. Apetite, dor, inflamação, humor e resposta ao estresse passam por ele, e é esse equilíbrio que a planta encontra pronto.
Nesta página · 5 seções
  1. O sistema já estava nos peixes
  2. O corpo fabrica os próprios canabinoides
  3. Por acaso, a planta fala a mesma língua
  4. Regula, não liga
  5. O que isso muda para você

O sistema já estava nos peixes

Pense num peixe-dourado num aquário. No cérebro dele existe o mesmo tipo de receptor canabinoide que existe no seu, o CB1, e ele cuida de coisas básicas: em experimentos com esse peixe, bloquear o receptor reduziu o quanto o animal nadava, e a anandamida aumentou o quanto ele comia. O receptor aparece em tantas regiões do cérebro de peixes, anfíbios e aves que a conclusão de Maurice Elphick, da Queen Mary University de Londres, é direta: nos vertebrados, a sinalização endocanabinoide pelo receptor CB1 acompanha mais de 400 milhões de anos de evolução do cérebro.

Esse número tem limite, e vale dizer qual. Ele descreve o cérebro dos vertebrados; para a origem dos receptores, que já existiam no ancestral comum dos cordados, a ciência não tem uma data em anos. Receptores do tipo CB1 e CB2 só existem nesse grupo; insetos não os têm. Já as enzimas que fabricam e desmontam os endocanabinoides aparecem em quase todo o reino animal, o que sugere que as ferramentas vieram antes das fechaduras.

E a planta? O pólen mais antigo compatível com cannabis tem cerca de 19,6 milhões de anos, numa atribuição que os próprios autores chamam de probabilística, e a planta já estava domesticada há cerca de 12 mil anos. Entre o sistema e a planta, uma distância de centenas de milhões de anos. Plantas, aliás, não têm receptores canabinoides nem produzem endocanabinoides.

O corpo fabrica os próprios canabinoides

O nome engana por causa da ordem da descoberta. O tetra-hidrocanabinol (THC) foi isolado da planta em 1964; o receptor no cérebro só foi demonstrado em 1988 e clonado em 1990, e o CB2 veio em 1993. Faltava saber o que o corpo colocava nesses receptores sem planta nenhuma por perto. O grupo de Raphael Mechoulam isolou a anandamida em 1992 e o 2-AG em 1995. A ciência achou a chave vinte e quatro anos antes da fechadura, e só depois descobriu que a casa tinha as próprias chaves.

Esses dois canabinoides do corpo não ficam guardados em estoque, como ficam outros mensageiros do cérebro. São fabricados na hora, a partir da membrana das células, agem onde foram feitos e são desmontados por enzimas logo em seguida. É o contrário do frasco na gaveta: nada espera a hora de ser usado.

Uma curiosidade sobre o tamanho do que falta estudar: em 2013, o próprio Mechoulam, um dos descobridores, escrevia que nenhum dos dois tinha sido administrado a seres humanos em estudo.

Por acaso, a planta fala a mesma língua

Se o sistema não foi feito para a cannabis, por que o THC se encaixa tão bem no receptor? Mechoulam e Linda Parker descrevem o encaixe como algo que acontece "aparentemente por um capricho da natureza". Não é um caso raro: a morfina, a cafeína e a nicotina também encaixam em receptores que o corpo já tinha. Plantas produzem milhares de compostos de defesa, e sistemas nervosos estão cheios de receptores. Encaixes acidentais acontecem.

A imagem da chave e da fechadura ajuda até aqui. Entre os canabinoides da planta, só o THC e um parente menos conhecido, a tetra-hidrocanabivarina (THCV), se ligam com força aos receptores CB1 e CB2. O canabidiol (CBD) tem afinidade extremamente baixa por eles: não ativa nenhum dos dois.

Então o que o CBD faz? Conversa com o sistema por caminhos indiretos. O mais bem documentado: ele atrasa, de forma moderada, a enzima que desmonta a anandamida, e com isso o canabinoide do próprio corpo dura mais. Esse efeito já foi observado em camundongos e em humanos. Os outros alvos propostos para o CBD foram vistos sobretudo em células, em laboratório, e o peso deles no organismo ainda não está claro. Por isso a OG escreve "conversa com o sistema endocanabinoide" e evita "ativa os receptores" quando o assunto é CBD.

Regula, não liga

Um interruptor liga ou desliga. O sistema endocanabinoide faz outra coisa: ajusta. A anandamida e o 2-AG funcionam como um sinal que volta: a célula que recebeu a mensagem avisa a que mandou para segurar um pouco. Pelas revisões de referência, com evidência vinda em grande parte de estudos em animais, o sistema participa do apetite, da dor, da inflamação, do humor, da resposta ao estresse e do sono (sobre o sono, os próprios autores admitem saber pouco). Mechoulam e Parker descrevem o sistema como uma espécie de porteiro da resposta ao estresse, com a função de manter o equilíbrio.

Isso explica uma coisa que muita gente nota: quando esse ajuste falha, costuma aparecer mais de um sintoma ao mesmo tempo, porque não são problemas separados, são peças do mesmo quebra-cabeça. O estresse da vida tira peças; o que a planta pode fazer é conversar com um sistema sob estresse e ajudar a reequilibrá-lo. Ela não "liga" nada que estivesse desligado, e não cura.

Há uma hipótese, defendida desde 2004, de que algumas pessoas teriam uma deficiência desse sistema. Segue hipótese: a evidência direta em pacientes é pequena, e nenhuma grande revisão a trata como diagnóstico. É uma pergunta boa, ainda sem resposta.

O que isso muda para você

  • Quando ler que a cannabis "ativa" algo no seu corpo, lembre que o sistema já está ativo há muito tempo. A planta entra numa conversa que já existe.
  • THC e CBD não fazem a mesma coisa no corpo: um se encaixa no receptor, o outro age por vias indiretas. "É tudo canabinoide" não explica o que está no frasco.
  • "Ativa o sistema endocanabinoide" é uma simplificação. Se aparecer num texto ou num rótulo, vale perguntar qual composto e por qual caminho.
  • A OG começa pelo sistema, e não pelo produto, por escolha: entender o que o corpo já faz é o que permite ler um rótulo sem se impressionar com uma palavra.
  • Com o prescritor, a pergunta útil é como aquele produto conversa com o seu sistema, não o que ele "cura". É ele quem conhece o seu histórico.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • Elphick, 2012. The evolution and comparative neurobiology of endocannabinoid signalling.
  • Mechoulam e Parker, 2013. The endocannabinoid system and the brain.
  • Di Marzo e Piscitelli, 2015. The endocannabinoid system and its modulation by phytocannabinoids.
  • McPartland, Matias, Di Marzo e Glass, 2006. Evolutionary origins of the endocannabinoid system.
  • McPartland, Hegman e Long, 2019. Cannabis in Asia: its center of origin and early cultivation.