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← Educação A história e a ciência · Pesquisa brasileira

Unifesp e Ribeirão Preto: as duas linhagens da pesquisa brasileira

O Brasil não teve um pioneiro solitário na ciência do canabidiol. Teve duas escolas, em cidades diferentes e em décadas diferentes. A primeira abriu o caminho nos anos 1970; a segunda o manteve aberto quando quase ninguém no mundo olhava para ele, e um ensaio dela contribuiu para a aprovação, pela Anvisa, do primeiro produto de CBD puro, em 2020.

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Oswaldo Cruz ao microscópio no laboratório de Manguinhos, Rio de Janeiro. Casa de Oswaldo Cruz.
Oswaldo Cruz ao microscópio no laboratório de Manguinhos, Rio de Janeiro. Casa de Oswaldo Cruz.
Em resumo e nesta página
  • Em 1973, o grupo de Elisaldo Carlini, na Unifesp, mostrou em animais que o canabidiol (CBD) tinha efeito anticonvulsivante. Em 1980 veio um ensaio pequeno em pessoas, hoje um marco histórico.
  • Dos anos 1980 em diante, outro grupo, na USP de Ribeirão Preto, levou a pesquisa adiante, numa época em que os estudos com CBD eram quase todos brasileiros.
  • Em abril de 2020 a Anvisa aprovou o primeiro produto de CBD puro no país, e no mesmo ano um levantamento apontou a USP como a instituição que mais publicava sobre CBD no mundo.
Nesta página · 5 seções
  1. Um pacote vindo de Jerusalém
  2. Quarenta anos na gaveta
  3. A segunda escola
  4. De 2016 a 2020: da bancada ao registro
  5. O que isso muda para você

Um pacote vindo de Jerusalém

No início dos anos 1970, o canabidiol era visto como um composto inativo. Ele não produzia os efeitos do tetraidrocanabinol (THC), e por isso pouca gente se interessava. Em 1973, um grupo brasileiro liderado por Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou em animais que o CBD tinha efeito anticonvulsivante. Era a primeira evidência de que a molécula fazia alguma coisa por conta própria.

Carlini tinha um parceiro do outro lado do mundo: Raphael Mechoulam, o químico de Jerusalém que havia descrito a estrutura do THC. Os dois se conheceram numa reunião científica, decidiram trabalhar juntos e dividiram o serviço, a química em Jerusalém e a biologia em São Paulo. Mechoulam conta, no prefácio de um livro recente, que purificou quase 500 gramas de CBD cristalino e mandou pelo correio para o Brasil.

Com esse material, o grupo de Carlini fez um ensaio duplo-cego com placebo: primeiro em voluntários saudáveis, depois em adultos com epilepsia, com CBD somado ao tratamento que já faziam, por quatro meses e meio. Eram 15 ou 16 pacientes, conforme a fonte. Os resultados parciais saíram em 1978 e o estudo completo em 1980, assinado por Cunha, Carlini e colegas. É um estudo pequeno, e deve ser lido como marco histórico, não como prova de que funciona.

Quarenta anos na gaveta

O que aconteceu depois é a parte da história que menos se conta. Segundo os próprios pesquisadores de Ribeirão Preto, aqueles resultados foram ignorados pela literatura científica durante os 40 anos seguintes. O artigo de 1980 ficou na gaveta. Entendemos que a proibição explica boa parte desse silêncio: estudar uma molécula vinda de uma planta proibida era difícil de financiar e difícil de publicar.

Vale registrar a honestidade de quem continuou. Em 2008, Antonio Zuardi, um dos nomes da segunda escola, escreveu que a eficácia do CBD em epilepsia ainda era incerta. O tema só voltou com força nos anos 2010, quando ensaios maiores retomaram a pergunta de 1980.

A segunda escola

Enquanto o mundo olhava para outro lado, a pesquisa com CBD mudou de endereço dentro do Brasil. Dos anos 1980 em diante, um grupo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com nomes como Antonio Zuardi, Francisco Guimarães, José Alexandre Crippa e Jaime Hallak, levou a molécula para outras perguntas. Em vez de convulsão, ansiedade e psicose: primeiro em animais, depois em voluntários, em estudos pequenos, um de cada vez.

O que torna essa fase singular é o isolamento. Zuardi escreveu, em 2008, que nos anos 1980 e 1990 a pesquisa com CBD foi mantida principalmente por brasileiros. O livro organizado pelo grupo em 2023 vai mais longe: nas décadas de 1970, 1980 e 1990, os estudos sobre possíveis efeitos terapêuticos do CBD se restringiram, quase exclusivamente, aos conduzidos no Brasil. Imagine um laboratório no interior de São Paulo publicando sobre uma molécula que o resto do mundo tinha deixado de lado.

Duas escolas é um resumo, não a lista completa. Um livro de divulgação de 2007 cita também grupos em Santa Catarina, no Espírito Santo e em outras universidades. Mas o eixo é esse: Unifesp primeiro, Ribeirão Preto depois, e Carlini nunca foi de Ribeirão Preto. São duas linhagens, não uma.

De 2016 a 2020: da bancada ao registro

Em 2016, a USP fechou um acordo com uma empresa farmacêutica brasileira para um ensaio maior, em vários centros, com placebo. Segundo Zuardi e Crippa, uma análise parcial desse ensaio contribuiu para que a Anvisa aprovasse, em abril de 2020, o primeiro produto de CBD puro no país. É o relato dos próprios autores, que declaram vínculos com a indústria, e é assim que deve ser lido: como a conta deles sobre a própria história.

No mesmo ano, um levantamento publicado pelo Jornal da USP apontou a universidade como a instituição com maior produção científica sobre CBD no mundo. É um dado de 2020, uma fotografia daquele momento, não um ranking permanente. Mas diz algo que vale repetir: o Brasil tem história nesta ciência, e não começou ontem.

O que isso muda para você

  • Quando você lê sobre canabidiol, parte do que lê foi produzido aqui, com nomes, cidades e datas. Não é moda importada que o Brasil só consome.
  • O ensaio de 1980 é um marco, não uma prova. Se alguém disser que "o Brasil provou em 1980", saiba o tamanho do estudo: 15 ou 16 pessoas.
  • Quase toda essa história foi feita com CBD purificado. A OG escolhe trabalhar com extrato de planta inteira; é uma escolha, não um veredito sobre o isolado. São caminhos diferentes, e a ciência brasileira pertence aos dois.
  • "A USP é a que mais publica no mundo" é um dado de 2020. Vale citar com o ano junto.
  • O que essa pesquisa significa para o seu caso é conversa com o seu prescritor, que conhece a sua história. Este artigo serve para você chegar a essa conversa sabendo de onde a ciência veio.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • Zuardi e Crippa, 2023, editorial sobre os cinquenta anos da pesquisa brasileira com CBD (Brazilian Journal of Psychiatry)
  • Zuardi, 2008, Canabidiol: de canabinoide inativo a droga de amplo espectro
  • Crippa, Souza, Guimarães e Zuardi (orgs.), 2023, Canabidiol na Medicina: da pesquisa à prática clínica
  • Malcher-Lopes e Ribeiro, 2007, Maconha, cérebro e saúde
  • Jornal da USP, 2020, levantamento sobre a produção científica mundial em CBD