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← Educação Da planta ao frasco · Saber de cultivo

O que os cultivadores sabiam antes da ciência

Durante décadas, quem mais aprendeu sobre a cannabis foi quem a cultivava, não quem a estudava em laboratório. A ciência chegou depois: confirmou uma parte desse saber, corrigiu outra e ainda não testou o resto.

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Colheita de cannabis para fibra espalhada no campo, Kentucky, 1898. Popular Science Monthly.
Colheita de cannabis para fibra espalhada no campo, Kentucky, 1898. Popular Science Monthly.
Em resumo e nesta página
  • A proibição tirou a cannabis da farmácia e, por décadas, dificultou a pesquisa formal sobre a planta.
  • Nesse intervalo, o saber de cultivo, secagem e seleção ficou com os cultivadores, sem artigo publicado.
  • Quando a ciência voltou à planta, confirmou parte do que eles sabiam, corrigiu parte (a cor do tricoma, por exemplo) e deixou o resto sem medir.
Nesta página · 6 seções
  1. Da farmácia à clandestinidade
  2. Quem ficou com a planta
  3. O que a ciência confirmou
  4. O que a ciência corrigiu
  5. O que ainda não foi testado, e como a OG lê os dois
  6. O que isso muda para você

Da farmácia à clandestinidade

A planta acompanha a humanidade há milênios, e até pouco tempo era produto de farmácia. No Brasil, jornais anunciavam cigarros antiasmáticos de cannabis entre 1895 e 1901, farmácias do Rio avisavam a chegada do produto em 1919 e um catálogo farmacêutico de 1930 ainda listava o extrato fluido de cannabis. Em 1932 um decreto incluiu a planta na lista de entorpecentes; em 1938 outro consolidou a proibição.

Nos Estados Unidos o caminho foi parecido: um imposto proibitivo em 1937 e, em 1970, a entrada na Lista I da nova lei de drogas, a categoria de controle mais rígido. Um médico de São Francisco só conseguiu material oficial para um estudo quando o protocolo passou a investigar dano, não benefício. Entre os anos 1970 e 1990, os estudos sobre possíveis efeitos terapêuticos do canabidiol (CBD) se restringiram quase exclusivamente aos conduzidos no Brasil, porque aqui havia um grupo que já estudava a molécula.

Quem ficou com a planta

Enquanto a universidade ficava de fora, a planta seguiu sendo cultivada. Pelo relato do jornalista Martin Lee, nos anos 1970 sementes afegãs chegaram aos Estados Unidos; no início dos anos 1980, um banco de sementes lançou variedades cujos nomes correm o mundo até hoje, como Haze, Northern Lights e Skunk #1, e em 1987 a Skunk #1 venceu a primeira Cannabis Cup. Ninguém publicou um artigo sobre isso. O que existia era observação repetida: de qual planta guardar semente, quando colher, como secar devagar.

A repressão também mudou o jeito de cultivar. A partir de meados dos anos 1980, campanhas de erradicação e leis de confisco empurraram o cultivo norte-americano para dentro de casa; em 1989, uma operação federal atingiu lojas de hidroponia em 46 estados. Clarke e Merlin descrevem a produção indoor com clones como reação à proibição, não como busca de qualidade. O escritor Michael Pollan resumiu a história de outro ângulo: o tabu criou uma planta nova.

Robert Clarke é um bom retrato dessa época: biólogo de formação, escreveu em 1981 um manual de cultivo e, em 2013, um livro acadêmico de etnobotânica por uma editora universitária. O mesmo autor, nas duas pontas. Ausência de artigo publicado nunca foi ausência de conhecimento; foi ausência de documentação.

O que a ciência confirmou

Todo cultivador sabia que certa planta "sempre sai daquele jeito", onde quer que cresça. A ciência mediu e deu nome: a proporção entre os canabinoides de uma planta é herdada, muda pouco com o ambiente, e o que varia mais com clima e manejo é o teor total e o perfil de aroma. É por isso que faz sentido falar em cultivar, uma variedade selecionada e estabilizada ao longo de gerações para repetir o mesmo perfil, e não em "cepa", palavra que não separa uma linhagem estável de uma instável.

Também confirmou o que cultivadores experientes diziam sobre a estufa: um capítulo de horticultura publicado em 2014 registra que a intensidade de luz não altera o percentual de THC da flor, só a razão entre flor e folha, e que a hidroponia não melhora rendimento nem potência. Indoor não é sinônimo de mais forte; nasceu como resposta a um problema de esconderijo.

O que a ciência corrigiu

Nem tudo passou no teste. A regra do "tricoma leitoso é hora de colher" foi examinada: num estudo com mais de 300 amostras secas, a cor do tricoma teve correlação mínima com a potência, exceto nos tricomas marrons, que já tinham passado do ponto. O olho enxerga o tempo passar; não enxerga o teor.

Os rótulos "indica" e "sativa" foram outro ajuste. Clarke e Merlin registram que os cultivadores do fim dos anos 1970 batizaram as plantas ao contrário do que a botânica depois estabeleceu, e que todas as variedades psicoativas pertencem ao mesmo grupo. O nome colou; a categoria de efeito não.

Houve ainda uma correção silenciosa, feita por um aparelho. Em 2008, um dispensário da Califórnia apoiou um laboratório para medir THC e CBD; entre milhares de amostras, poucas cultivares passavam de 4% de CBD. Lee lê isso como o resultado de décadas de seleção pela psicoatividade; o que o laboratório mostrou foi algo que, até ali, ninguém tinha como ver.

O que ainda não foi testado, e como a OG lê os dois

A cura, aquela secagem lenta e controlada que todo cultivador cuidadoso defende, aparece na literatura técnica como prática vinda dos próprios cultivadores, voltada ao sabor; o que ela faz com o conteúdo da flor não aparece medido. O mesmo vale para boa parte do que um produtor sabe sobre o próprio terreno: como determinada cultivar se comporta naquele solo, naquele vento, naquela estação. É observação acumulada, ainda sem experimento.

A OG lê o produtor e lê o artigo. Quando a East Fork Cultivars, produtora parceira da OG no Oregon, conta como cultiva ao sol e por que escolhe uma cultivar e não outra, ouvimos como relato de quem passou anos com a planta; os selos USDA Organic, Oregon Tilth e Sun+Earth Certified são a parte desse relato que um terceiro verificou. Depois, o laudo de cada lote diz o que a flor entregou de fato. Produtor ao sol e laudo por lote são escolhas da OG, não superioridade provada; entendemos que uma conta sem a outra fica incompleta.

O que isso muda para você

  • Quando alguém explicar uma cultivar, pergunte o que foi medido e o que foi observado. As duas respostas valem; são coisas diferentes.
  • "Indoor" sozinho não quer dizer mais forte nem melhor. O conteúdo da flor quem mostra é o laudo.
  • Cor de tricoma, ponto de colheita e cura são saber de cultivador. O que chegou ao frasco, só o laudo do lote informa.
  • Afirmação sem estudo não é falsa; é não testada. Vale perguntar em qual situação ela está: confirmada, corrigida ou ainda sem medida.
  • O produto que você usa e a forma de usar são conversa com o seu prescritor.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • Pertwee, R. (org.) (2014). Handbook of Cannabis (capítulos de Potter e de Meijer).
  • Lee, M. A. (2012). Smoke Signals: A Social History of Marijuana.
  • Clarke, R. C. e Merlin, M. D. (2013). Cannabis: Evolution and Ethnobotany.
  • Saad, L. (2019). "Fumo de negro": a criminalização da maconha no pós-abolição.
  • Crippa, J. A. et al., orgs. (2023). Canabidiol na Medicina: da pesquisa à prática clínica.