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O que acontece com os terpenos entre a colheita e o frasco

Terpenos são o cheiro da cannabis, e cheiro evapora. Num estudo que mediu isso, a flor perdeu quase um terço do óleo aromático numa semana de secagem e mais da metade em três meses de guarda. O aroma que chega ao frasco é resultado do caminho, não só da planta.

Por Equipe editorial OGLeitura de 6 minutos
Alambique de destilação. Hieronymus Brunschwig, Liber de arte distillandi de compositis, 1512.
Alambique de destilação. Hieronymus Brunschwig, Liber de arte distillandi de compositis, 1512.
Em resumo e nesta página
  • Terpenos são as moléculas do aroma. As mais leves, como o mirceno, evaporam primeiro; as mais pesadas, como o beta-cariofileno, ficam.
  • Numa amostra estudada, a flor perdeu 31% do óleo aromático em uma semana de secagem e 55% depois de três meses de guarda. O mirceno despencou; limoneno e alfa-pineno mantiveram a fatia.
  • Em humanos, o único efeito dos terpenos que ninguém discute é o aroma. O resto ainda está em estudo.
Nesta página · 6 seções
  1. Terpenos são o cheiro, e cheiro evapora
  2. Uma semana secando: o que um estudo mediu
  3. Quem some e quem fica
  4. Da flor ao frasco: o processo também assina o aroma
  5. O que os terpenos fazem em você
  6. O que isso muda para você

Terpenos são o cheiro, e cheiro evapora

Abra um frasco de óleo e aproxime do nariz. O que você sente são terpenos: moléculas pequenas que a planta fabrica nos tricomas, as glândulas minúsculas da flor. Mais de cem já foram identificados na cannabis, e a combinação deles dá a cada cultivar o seu cheiro.

Entre eles há uma diferença de peso que explica quase tudo neste artigo. Os monoterpenos, como mirceno, limoneno e alfa-pineno, são leves e evaporam com facilidade. Os sesquiterpenos, como beta-cariofileno, humuleno e guaiol, são mais pesados e resistem melhor ao tempo e ao calor. Pense na flor recém-colhida como um perfume aberto: o que é leve sobe primeiro.

Uma semana secando: o que um estudo mediu

Em 1996, dois químicos da Universidade do Mississippi publicaram um experimento simples. Colheram 60 gramas de flor de um único cultivo, sob luz artificial, e dividiram em quatro partes. Uma foi analisada fresca. As outras secaram ao ar, em temperatura ambiente, por uma semana; duas delas ficaram depois em saco de papel pardo, uma por um mês e outra por três.

Na flor fresca, o óleo volátil (a fração aromática, feita quase toda de terpenos) era 0,29% do peso. Depois de uma semana de secagem, 31% desse óleo tinha ido embora. Com mais um mês no saco de papel, a perda chegou a 44,8%; com três meses, a 55,2%. Mais da metade do aroma, perdido sem que ninguém mexesse na flor.

O motivo do estudo não era medicinal: era saber se o cheiro da planta seca ainda podia ser reconhecido, uma questão então em discussão nos tribunais americanos. Podia, e os técnicos reconheceram todos os óleos. A flor seca continua com cheiro de cannabis, só que com menos dele e com outra proporção entre as notas.

Uma ressalva honesta: foi uma única amostra, uma única colheita, sem repetição. É uma amostra, não uma regra, mas é a medição mais direta que a OG encontrou.

Quem some e quem fica

Dentro desse óleo que encolheu, a composição mudou. Na flor fresca, os monoterpenos leves eram 92,5% do óleo; depois de três meses, 62%. Os sesquiterpenos pesados fizeram o caminho contrário: de 6,8% para 35,6%. Não é que a planta tenha fabricado mais deles: eles ficaram, enquanto os leves saíam.

Terpeno por terpeno, quem puxou a queda foi o mirceno: era 67% do óleo na flor fresca e caiu para 33% depois de três meses. O limoneno manteve a fatia, 16% antes e depois. O alfa-pineno também, pouco acima de 1%. Entre os pesados, o beta-cariofileno subiu de 1,3% para 5,5%. O linalol, que é leve mas resistiu, foi de 2,8% para 5,1%.

Manter a fatia não quer dizer que nada se perdeu: o óleo inteiro encolheu, e limoneno e alfa-pineno encolheram junto, no ritmo do conjunto. O que mudou foi o equilíbrio entre as notas. Uma flor que começou dominada pelo mirceno terminou, em proporção, mais cítrica, floral e amadeirada, só porque o tempo passou.

Da flor ao frasco: o processo também assina o aroma

A secagem é só a primeira etapa. Depois vêm a cura, a extração e a guarda, e a literatura descreve a mesma direção em todas elas: os leves vão se perdendo, a fatia dos pesados cresce, e o beta-cariofileno costuma terminar como o terpeno predominante em extratos que passaram por calor. Calor, oxigênio e luz também criam, pelo caminho, compostos novos derivados do que estava na planta.

Isso muda a forma de ler um laudo. O perfil de terpenos da flor conta a história da planta no dia da colheita; o do extrato, a do que chegou ao frasco. Os dois são verdadeiros, e são diferentes. Na OG, quando descrevemos o aroma de um óleo, preferimos partir do que foi medido no extrato pronto; quando só existe o laudo da flor, dizemos isso. É assim que a OG lê o aroma.

A genética da cultivar define o conjunto de terpenos possível, o ambiente de cultivo mexe nas quantidades, e o processo decide quanto desse conjunto sobrevive. Por isso duas flores da mesma cultivar podem chegar ao frasco com aromas diferentes.

Sobre o óleo já no frasco, guardado por meses, não encontramos nas fontes lidas medição com o mesmo cuidado. Entendemos que a lógica é a mesma, mas aqui é raciocínio, não medida.

O que os terpenos fazem em você

Fala-se muito sobre os efeitos dos terpenos, e o estado da evidência é mais simples do que parece. Uma revisão canadense de 2019 resumiu assim: em humanos, o único efeito inquestionável dos terpenos da cannabis é o aroma. As outras propriedades, inclusive as medicinais, ainda estão fora do campo da evidência científica.

A possível exceção é o beta-cariofileno, que em células e em camundongos se liga a um receptor do sistema endocanabinoide; em pessoas, isso ainda não foi demonstrado. Para os demais, nenhum mecanismo de ação junto aos canabinoides foi comprovado até agora.

Nada disso diminui o aroma. É a parte dos terpenos que a ciência já confirmou; só não vale esperar deles o que ainda não foi medido.

O que isso muda para você

  • O cheiro do frasco é o resultado de um caminho: colheita, secagem, cura, extração e guarda. Ser diferente do cheiro da flor não é defeito.
  • Se dois lotes do mesmo óleo cheiram um pouco diferente, a secagem e a guarda da flor de origem podem explicar; o laudo de cada lote mostra o que de fato chegou.
  • Ao ler um laudo, veja se o perfil de terpenos é da flor ou do extrato: são fotos de momentos diferentes.
  • Guarde o frasco fechado, no escuro e longe do calor. O que é leve sai primeiro, na flor e na sua gaveta.
  • Aroma é o que os terpenos comprovadamente fazem em você. O resto é pesquisa em andamento.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação de um profissional habilitado.

Fontes
  • Ross e ElSohly, 1996. Óleo volátil de flores frescas e secas de Cannabis sativa.
  • Booth e Bohlmann, 2019. Terpenos em Cannabis sativa, do genoma da planta aos humanos.
  • Russo, 2011. Taming THC: sinergia entre canabinoides e terpenoides.
  • Radwan e colegas, 2021. Canabinoides, fenólicos, terpenos e alcaloides da cannabis.